Moradores de assentamentos apoiam equipes do TED-Incra/UFPR em viagens de campo

Durante as visitas, assentados preparam refeições, orientam trajetos e fortalecem laços de parceria com os pesquisadores

Por Cecilia Sizanoski | Agência Escola UFPR 

14 de novembro de 2025

O sol está no meio do céu quando as caminhonetes do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) chegam pela estrada de terra a um dos lotes do Projeto de Assentamento (PA). Depois de uma manhã corrida realizando as atividades do projeto, uma equipe do TED-Incra/UFPR se reúne na casa de um dos assentados para desfrutar de um banquete com direito a suco de acerola, bolinho de mandioca e maionese caseira.

Almoço preparado por moradora do assentamento Muquilão em Iretama / Foto: Cecilia Sizanoski

Essa cena é recorrente nas viagens de campo, que são parte estrutural das atividades dos projetos da parceria entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Universidade Federal do Paraná (UFPR). De tempos em tempos, as equipes percorrem diferentes regiões do Paraná para coletar dados, realizar vistorias e compreender detalhes dos territórios da reforma agrária. Para isso, é necessário passar o dia todo dentro dos PAs. Nessas viagens, o apoio e o acolhimento dos moradores dos assentamentos surgem de diversas maneiras, seja como serviço contratado ou como gentileza. 

Exemplo disso é o projeto Supervisão Ocupacional, cuja equipe visita cada lote dos assentamentos para registrar de que forma o terreno está sendo utilizado e conferir a documentação dos moradores. O bolsista técnico do projeto, Sidney Vincent de Paul Vikou, explica que, em municípios com distância maior entre o assentamento e o centro da cidade, a logística pode ficar difícil: “Pois a equipe teria que se deslocar de manhã até o assentamento, voltar à cidade para almoçar e, depois, retornar ao campo para encerrar o expediente. Para evitar esse gasto desnecessário de tempo e desgaste da equipe, torna-se estratégico organizar os almoços nos assentamentos”, explica.

Dessa forma, são contratados moradores dos assentamentos para preparar o almoço das equipes. Segundo o bolsista, o contato com os assentados é feito de forma organizada e colaborativa. O primeiro passo é entrar em contato com a Prefeitura e pedir indicações de alguma liderança do assentamento. “Com base nessa conversa, explicamos nossa dinâmica de trabalho e perguntamos se seria possível auxiliar no almoço. Assim, de forma voluntária ou consensual, eles designam uma família para nos ajudar com as refeições. Contribuímos também com o valor dos almoços.” 

Moradoras do assentamento Nata, em Iretama, com o almoço que prepararam para a equipe do Lageamb / Foto: Cecilia Sizanoski

Durante uma viagem de campo da SO para o município de Iretama, foram visitados três projetos de assentamento e, em cada um deles, um grupo de pessoas ficou responsável pelo almoço. Uma das responsáveis pelas refeições foi Neide Aparecida Felício, que também prepara comida para quem vai ao assentamento levar cursos, eventos ou mesmo para os funcionários das obras da prefeitura: “Eu gosto de cozinhar. Faço tudo com carinho, e acho que é por isso que a comida sai boa. Fico feliz de ver o pessoal satisfeito e de poder ajudar.” 

Já a produtora rural Helena Barbosa foi a cozinheira do dia seguinte, em outro assentamento do município, e conta que sempre se disponibiliza para ajudar: “Aqui quase não tem ninguém disponível para essas coisas, então eu e a vizinha sempre ajudamos. A gente gosta de receber, de fazer comida para quem vem de fora. É bom ver o pessoal feliz e poder contribuir com o trabalho.” 

Outros tipos de apoio são solicitados e oferecidos pelos assentados, como o de mostrar os caminhos de acesso nos terrenos. Essa atividade é muito buscada pelo projeto Geodésia, que visita os assentamentos para realizar o georreferenciamento, atividade que exige percorrer todos os limites de cada um dos lotes. Isso pode ser difícil, dependendo da paisagem onde estão, e, por isso, contratam moradores como guias locais. A bolsista técnica do projeto Geodésia, Marianne Oliveira, explica que a presença dos assentados faz toda a diferença: “Eles conhecem o território como ninguém. Nos acompanham nas medições, indicam os melhores caminhos e ajudam a abrir picadas em áreas de mata. Esse envolvimento facilita o trabalho e cria uma relação de parceria e respeito”.

Convivência e aprendizado

Equipe toma café na casa dos assentados Suzana e José Mota, em Iretama. / Foto: Cecilia Sizanoski

Mesmo quando não há um acordo de serviço, o acolhimento nos assentamentos aparece nas pequenas gentilezas do dia a dia. Com frequência, quando as equipes chegam aos lotes para conversar com os moradores, são recebidas com café e um lanche. Isso aconteceu na casa do casal Suzana Mota e José Mota, que deixou a mesa posta para receber os bolsistas da Supervisão Ocupacional. “É difícil vir alguém diferente aqui, então, quando aparece, a gente trata bem para que se sinta em casa”, explica ela. Os dois são beneficiários da política de reforma agrária e vivem no lote desde 2019, tempo suficiente para desenvolverem grande carinho pelo espaço: “Desde criança a gente sonha em ter o lugar da gente, e é muito difícil conseguir. Agora que temos, não trocamos por nada”, explica Jo. “Então, quando uma equipe vinculada ao Incra vem aqui, a gente mostra o quanto é grato.” 

Morador do assentamento colhe abacates para dar de presente à equipe do Lageamb / Foto: Cecilia Sizanoski

Também é comum que as equipes voltem das viagens com sacolas cheias de “presentes” que recebem dos moradores. Limões-rosa, amoras, colorau, paçoca caseira, mudas de café, abacate e doce de leite são alguns dos itens que os bolsistas já ganharam. A professora coordenadora da SO, Liliani Tiepolo, sempre volta dos campos com várias frutas e mudas e avalia que essas trocas revelam uma forma de viver mais coletiva: “Eles distribuem com naturalidade, e muitas vezes insistem para que a gente aceite. É uma demonstração de cuidado e afeto”, conta. “Eles participam de uma outra lógica de mundo, não estão nessa lógica individualista da cidade. São pessoas mais coletivas, que vivem a troca como parte do cotidiano.” 

Segundo ela, o vínculo entre pesquisadores e assentados se constrói em múltiplos níveis: “Eles trocam entre si o que produzem e conosco, que estamos prestando um serviço que vai beneficiá-los. É uma forma de reciprocidade.” 

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