Da pesquisa à gestão: a importância das mulheres no laboratório

Conheça histórias inspiradoras de algumas das mulheres que fazem a diferença no Lageamb UFPR
Por Karen Sailer Kletemberg  

O 8º dia do mês de março é marcado pela celebração do Dia Internacional das Mulheres. Uma data em prol do combate à desigualdade de gênero e ao reconhecimento de meninas e mulheres. O dia foi oficializado pela Organização das Nações Unidas, a ONU, na década de 1970 e a sua origem remete à luta de trabalhadoras em busca de mais igualdade, respeito e direitos.

Ao todo, o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná (Lageamb UFPR) conta com a atuação profissional de 90 mulheres, entre professoras, equipe técnica, servidoras e bolsistas de extensão. Esse número é o equivalente a 50% da equipe do Laboratório. Para celebrar o 8 de março, o Lageamb UFPR convidou 5 mulheres para compartilharem histórias inspiradoras dentro da sua trajetória profissional no Laboratório, seja em áreas de pesquisa ou coordenação. Esses relatos representam uma parte do protagonismo de diversas mulheres que foram e são essenciais na trajetória da iniciativa, desde a sua fundação até os dias atuais.

PESQUISA COMO ATO DE RESISTÊNCIA
Antes de ser subcoordenadora do projeto Periferia Sem Risco UFPRFernanda Sezerino já foi estagiária na Prefeitura de Paranaguá, um dos municípios em que o projeto atua com uma relevância socioambiental significativa. A sua trajetória profissional na área e sua dedicação a essa iniciativa já foram destacadas como exemplo para os integrantes do Comitê Gestor do Plano Municipal de Riscos de Paranaguá.
Durante os trabalhos de campo para o mapeamento das áreas de risco nesse município, Fernanda conta que muitos moradores relataram a confiança no trabalho realizado pela universidade e na esperança desse estudo contribuir para reduzir os impactos dos alagamentos e inundações no município. “Essa troca com a população local nos motiva a fazer um trabalho cada vez melhor e que gere impacto positivo,” afirma ela.

“Seguir carreira como pesquisadora, sendo mulher, é um ato de resistência nesses ambientes acadêmicos que ainda são tão patriarcais. Mas o nosso olhar e as nossas experiências são extremamente relevantes na produção científica, especialmente no contexto dos problemas socioambientais complexos. Para quem está iniciando, minha dica é estudar o que gosta e ocupar todos os lugares que desejar! As trocas com outras mulheres pesquisadoras também é muito rica e auxilia a conciliar nossas tantas versões na sociedade.” – Fernanda Sezerino

Fernanda durante um dos trabalhos de campo do projeto Periferia Sem Risco UFPR. Foto: arquivo pessoal

DESAFIOS E OBSTÁCULOS
O trabalho realizado pela equipe do Lageamb no projeto de georreferenciamento junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e às comunidades rurais é essencial para que essas famílias obtenham os documentos de suas terras. Marianne Oliveira, que é subcoordenadora da equipe Geodésia, conta que tem sido uma experiência desafiadora e gratificante. Atualmente, ela assume um papel de liderança, mas também faz pesquisa de campo, o que a faz perceber o impacto da sua atuação. Marianne exemplifica que o trabalho de levantamento exige dias intensos em campo, enfrentando desafios operacionais e logísticos, além das surpresas e imprevistos que surgem no meio da mata. “Cada viagem é uma nova aventura, onde precisamos tomar decisões rápidas para garantir a eficiência do trabalho e segurança da equipe,” relatou ela.

“Trabalho em uma equipe majoritariamente masculina, executando atividades de campo que exigem resistência física, enfrentando o peso do campo, as dificuldades do dia a dia, e tomadas de decisão constantes. Os desafios existem, e os comentários negativos podem vir de todos os lados. Mas, o mais importante é acreditar em você, no seu trabalho e na sua capacidade. Você pode estar onde quiser e fazer o que desejar. Ninguém pode definir quem você é ou até onde pode chegar. Se pudesse deixar um conselho, diria: seja curiosa, explore, se permita errar e recomeçar. Caminhe por diferentes trilhas até encontrar aquela que faz seu coração vibrar. A ciência não tem um único caminho, e quanto mais você descobrir, mais verá que pertence a todos eles.” – Marianne Oliveira

Marianne também realiza voos com drones durante o trabalho de campo. Foto: arquivo pessoal

OS IMPACTOS POSITIVOS DA PESQUISA
No Lageamb, Raquel Sizanoski é coordenadora do projeto Busca Cartorial do Ted-Incra/UFPR e integra a equipe do TECA Paranaguá. Para o desenvolvimento do TED-Incra/UFPR, ela conta que propuseram uma metodologia para sistematizar a busca nos serviços registrais e dispor as informações coletadas. O que impactou positivamente em toda a estrutura de governança, permitindo intersecção das informações com todas as áreas de gestão. “Quando apresentei os resultados ficou evidente que a recomposição e ordenamento da base de informações de terras de propriedade do Incra não era apenas uma questão burocrática, mas um pilar fundamental para a efetividade da reforma agrária e um elemento essencial para a governança fundiária, temas que analiso em minha tese de doutorado,” explicou Raquel.
A pesquisadora relata ainda que, naquele momento, sentiu que seu trabalho teve um impacto direto na melhoria de uma política tão importante, porque o processo de pesquisa e análise de documentos registrados, a busca cartorial, muitas vezes invisível, mostrou-se um elemento chave para garantir a efetividade da política de reforma agrária. Ela complementa que “isso reforçou minha convicção de que a pesquisa acadêmica contribui para a transformação de realidades, especialmente em temas tão urgentes como a reforma agrária.

“A jornada científica muitas vezes é solitária e cheia de obstáculos, especialmente para nós mulheres, que ainda enfrentamos preconceitos e lidamos com a dupla jornada. Mas a recompensa por ver concretizada uma pesquisa e poder contribuir para o avanço não só da ciência, mas da ampliação dos espaços das mulheres, não tem igual! Não permita que estereótipos ou barreiras limitem seus sonhos. Acredite em si mesma e prossiga, pois o mundo necessita da sua voz e do seu trabalho.” – Raquel Sizanoski

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Como dica, Raquel recomenda que as mulheres não tenham medo de ocupar espaços e estar preparada para os desafios. Foto: Lageamb UFPR

A IMPORTÂNCIA DA LIBERDADE NA PESQUISA

Para Vivian Cordeiro da Silva, geógrafa e analista ambiental no Lageamb, a sua atuação no Projeto Território Caiçara nas Ilhas das Peças e do Superagui foi um “divisor de águas”. Ela conta que “foi neste espaço que eu finalmente senti a liberdade de apresentar as minhas ideias e me senti muito mais confiante como pesquisadora, pois via que eu fazia parte da construção daquele trabalho em vários pontos de vista – metodológico, prático e até pessoal.”

Vivian, que atualmente é subcoordenadora do Projeto Território Caiçara na Baía de Paranaguá, explica que essa liberdade que teve foi muito importante para ter coragem de dar ideias, para falar das suas dúvidas, escutar pontos de vistas diferentes e absorver as experiências dos seus colegas. Dessa forma, ela sentiu que  tornou-se mais capaz de articular diferentes aspectos e de propor caminhos e soluções para desenvolver um trabalho que fosse bem recebido. Somado a isso, ela relata que, para além de aprender, também passou a ensinar. “Se posso me sentir protagonista hoje, é porque estou neste espaço de desenvolvimento e de acolhimento,” complementa ela.

“Ainda enfrentamos muitas disparidades quando falamos da carreira de pesquisadora, por isso, é muito importante compartilhar as nossas descobertas e nos apropriar daquilo que desenvolvemos, para que conheçam o quanto somos, enquanto mulheres, substanciais à ciência e à pesquisa. Acredito que buscar conhecer outras mulheres que já são pesquisadoras e cientistas também é muito importante para construir uma rede de apoio, pois nós, mulheres, compartilhamos noções e perspectivas únicas e essenciais para o desenvolvimento científico. Quando trocamos experiências, nos sentimos mais encorajadas para enfrentar desafios e para tomar nossos lugares de protagonistas.” – Vivian Cordeiro da Silva” – Vivian Cordeiro da Silva

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Vivian durante pesquisa de campo. Foto: Arquivo Projeto Território Caiçara

OS BASTIDORES DA PESQUISA

Assim como as pesquisas de campo, as áreas de coordenação e administração são muito importantes para o bom funcionamento de um laboratório. Dentro do Lageamb, o trabalho da Larissa Soares de Lima, que é Coordenadora de Gestão de Pessoas, é essencial. Larissa explica que o dinamismo do laboratório e a diversidade das áreas de atuação exigem que ela esteja constantemente próxima dos coordenadores, subcoordenadores e pontos focais, sempre buscando auxiliá-los nas questões administrativas para que possam se concentrar plenamente nas pesquisas e nos desafios de campo. Ela relata que, durante a organização da última Semana de Planejamento pôde experienciar “o quanto a gestão de processos e pessoas, muitas vezes de forma discreta, é essencial para garantir que as pesquisas sigam com qualidade e fluidez.”

Para as meninas e mulheres que desejam seguir carreira em laboratórios e projetos de pesquisa, a principal dica de Larissa é sempre confiar em sua capacidade de liderança e organização, independentemente do cargo ou função. “A pesquisa não se limita apenas ao trabalho no campo ou no laboratório, mas também ao esforço constante de quem organiza, apoiando e garantindo que tudo aconteça da melhor forma”, destaca ela. Somado a isso, a coordenadora ainda conta que a sua trajetória foi inspirada pelas mulheres da sua família: “elas me ensinaram a importância do ensino, educação, pesquisa, da força das mulheres, como a persistência e o compromisso com a qualidade do trabalho faz toda a diferença.

“O caminho pode ser desafiador, mas cada obstáculo é uma oportunidade para crescer, aprender e fazer a diferença. Procurem construir uma rede de apoio com outras mulheres e homens que compartilhem da mesma paixão pela pesquisa, e nunca tenham medo de ocupar espaços de protagonismo, pois cada contribuição, por menor que pareça, é fundamental para o avanço da pesquisa e do conhecimento.” – Larissa Soares de Lima

Larissa Soares de Lima
Apesar de atuar há cerca de 5 meses no Lageamb, Larissa afirma ter tido experiências intensas e extremamente gratificantes com as equipes.
Foto: arquivo pessoal
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