Gestão responsável de dados: como o Lageamb fortalece a cultura digital na UFPR

Com a formalização de práticas de governança, o laboratório demonstra caminhos possíveis para uma universidade mais segura e preparada digitalmente

Por João Vitor Corrêa / Laboratório da Comunicação Pública da Ciência
04 de março de 2026

Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), dados estão em todos os lugares: nas pesquisas de campo, nos sistemas administrativos, nos projetos de extensão, nos trabalhos de docentes e estudantes, nos fluxos burocráticos e nas parcerias com órgãos públicos. Cada vez mais, a universidade depende de grandes volumes de informação digital para funcionar. Ao mesmo tempo, cresce a responsabilidade de proteger esses dados, garantir seu uso ético e organizá-los para que tenham valor real.

A política não é o fator decisivo, a colaboração de todos é essencial. Foto: Glenn Carstens Peters/Unsplash

A transição para uma cultura digital mais madura passa por desafios que não são apenas tecnológicos. Envolve comportamento, organização, padronização e, sobretudo, consciência coletiva sobre o papel dos dados na vida universitária. E é justamente nesse contexto que iniciativas internas começam a ganhar destaque, entre elas, o Manual de Boas Práticas do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), que incorpora a Política de Tecnologia da Informação e Comunicação (PTIC), desenvolvida pela equipe de GeoTI.

O desafio universitário com muitos dados e pouca governança

Na UFPR, como em outras universidades públicas, a circulação de dados cresceu muito mais rápido do que a capacidade institucional de organizá-los. Em laboratórios, setores administrativos e grandes projetos, é comum que informações fiquem armazenadas de forma dispersa em drives pessoais, sem versionamento ou histórico, e que arquivos circulem sem padronização de nomenclatura ou critérios claros de acesso. 

Também não são raras situações em que softwares são utilizados sem licenciamento adequado, aumentando riscos legais, ou em que dados sensíveis acabam expostos em ambientes inadequados por falta de protocolos. Tudo isso se agrava quando não está claro quem é o responsável por cada etapa da gestão da informação. Em áreas que lidam diretamente com dados sensíveis de áreas como políticas públicas, saúde, assistência ou gestão territorial, esses problemas se tornam ainda mais críticos, ampliando riscos éticos, jurídicos e reputacionais para a instituição. Com isso, cresce a necessidade de políticas claras e de uma governança de dados que vá além do setor de TI.

A Política de Tecnologia da Informação e Comunicação do Lageamb como exemplo dentro da UFPR

A maturidade digital não ocorre da noite para o dia, ela começa em pequenas iniciativas que se tornam referência. O Lageamb lida diariamente com grandes bases geográficas, dados sensíveis fornecidos por órgãos públicos, como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Paraná (Incra) e prefeituras, além de equipes numerosas em constante renovação. Isso fez com que o laboratório antecipasse uma discussão que começa a ganhar força na universidade: como tratar dados como patrimônio institucional?

Gestão de dados é um desafio para a universidade. Foto: André Filgueira/SUCOM UFPR

Essa preocupação se materializa no Manual de Boas Práticas do Lageamb, documento que estabelece diretrizes para o funcionamento do laboratório e orienta desde rotinas administrativas até a gestão de dados e o uso das tecnologias. Segundo Maísa Umbelino, servidora técnica do laboratório, o manual garante que as atividades estejam em conformidade com a legislação vigente e com as recomendações de auditorias internas e externas, assegurando maior segurança jurídica aos integrantes.

E dentro deste manual está presente a Política de Tecnologia da Informação e Comunicação, apresentada por Valmir Antunes Pereira, coordenador da equipe de GeoTI, como uma resposta ao crescimento das demandas e à responsabilidade sobre informações públicas. “Hoje temos mais de 200 bolsistas. Com tanta gente entrando e saindo, precisamos de regras claras para garantir que todo mundo faça as coisas do jeito certo”, explica.

Valmir destaca que a política não surgiu para “reinventar a roda”, mas para dar clareza ao que já vinha sendo praticado no laboratório. “As boas práticas já estavam em andamento. A política traz transparência: explica por que fazemos cada coisa e facilita a vida de quem está chegando.” Ao ser formalizada, a PTIC consolida essas práticas, padroniza processos de segurança, orienta o armazenamento institucional e delimita as responsabilidades de gestores, equipes e usuários. Para um laboratório que trabalha com dados que pertencem a outros órgãos, esse tipo de organização é indispensável.

Educação digital como ponto decisivo

Embora a política tenha diretrizes técnicas, o coordenador da equipe de GeoTI enfatiza que o elemento central é o comportamento humano. “Segurança não é só tecnologia, é educação. Mesmo com ferramentas avançadas, alguém pode copiar algo num pendrive. Por isso, nosso foco é a conscientização.”

O caráter educativo está presente no Manual de Boas Práticas. Segundo Maísa, o documento esclarece aos usuários a responsabilidade e a obrigatoriedade de sigilo das informações, evitando usos indevidos e reforçando a importância do cumprimento das regras estabelecidas. “Isso não se restringe apenas à segurança dos dados, mas a todos os aspectos que o manual orienta”, destaca.

O manual também reúne orientações sobre produtividade, rotinas de segurança em atividades de campo, regras para uso e guarda de equipamentos e veículos, além de normas de boa convivência. Em um laboratório com grande diversidade de culturas e formações acadêmicas, essas diretrizes ajudam a manter um ambiente seguro, respeitoso e adequado ao desenvolvimento das atividades.

Esse conjunto de práticas revela uma lição importante: a cultura de proteção de dados só se consolida quando cada pessoa compreende seu papel, do professor ao bolsista, do gestor ao técnico. Para Valmir, pesquisadores tendem a entender rapidamente a importância do tema, mas ainda existem desafios para consolidar essa cultura na universidade como um todo. 

Ao formalizar suas práticas e avançar na governança de dados, o laboratório contribui para fortalecer a cultura digital da UFPR, garantindo que o conhecimento produzido e os serviços prestados estejam amparados por segurança, eficiência e transparência. Em uma universidade que depende cada vez mais de dados, tratá-los como patrimônio é um passo essencial, e o Lageamb começa a mostrar como isso pode ser feito.

O coordenador da equipe de GeoTI, Valmir Antunes Pereira. Foto: Acervo Lageamb

Para onde a universidade pode avançar

A experiência do Lageamb também aponta caminhos possíveis para a UFPR como um todo. O laboratório já iniciou processos estruturados de governança de dados, que envolvem mapear o ciclo completo de cada informação, desde sua criação até o descarte, revisar a infraestrutura de armazenamento e organizar um catálogo que registra, para cada projeto, a origem, a sensibilidade e a forma adequada de tratamento dos dados. 

Além disso, trabalha para estabelecer padrões sobre quem pode acessar quais informações, como elas devem ser protegidas e quando precisam ser arquivadas ou eliminadas. São práticas amplamente consolidadas em empresas e órgãos públicos, mas ainda pouco difundidas no ambiente acadêmico. Para Valmir, essa agenda tende a crescer na universidade nos próximos anos, porque a confiança institucional depende cada vez mais da maneira como os dados são produzidos, compartilhados e protegidos.

Ao integrar a Política de Tecnologia da Informação e Comunicação ao Manual de Boas Práticas, o Lageamb sinaliza que a governança de dados não deve ser tratada como um tema isolado ou restrito à área técnica, mas como parte da cultura institucional do laboratório. Mais do que um avanço local, a iniciativa indica um caminho possível para a UFPR construir uma cultura digital mais sólida, em que a informação seja tratada com a mesma seriedade dedicada ao patrimônio físico da universidade.

Se laboratórios, projetos, grupos de pesquisa e setores administrativos adotarem práticas semelhantes, a instituição se fortalece como um ambiente capaz de proteger dados sensíveis, oferecer transparência quando necessário e garantir segurança jurídica, técnica e ética. Afinal, mais do que arquivos ou pastas, dados são parte do patrimônio público e tratá-los com responsabilidade é essencial para a credibilidade institucional, para o avanço da ciência e para conquistar a confiança da sociedade.

pt Portuguese
X