Drones e sensoriamento remoto: a ciência de alta precisão na conservação ambiental

Os diagnósticos que antes exigiam um mês de trabalho de campo, agora são executados em menos de uma semana  

Maíra Gioia com colaboração de Pedro Parreira
Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência 
30 de julho de 2026

Sob o olhar imponente do Pico Paraná — que tem 1.877 metros de altitude e é o ponto mais alto da Região Sul do Brasil —, a Mata Atlântica serve de cenário para uma formação tecnológica de alto nível. Na Reserva Natural Guaricica, da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), em Antonina, no litoral paranaense, geógrafos preparam especialistas na operação de drones a serviço da conservação. A iniciativa reflete a maturidade do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da UFPR, que completa 20 anos em 2026. Duas décadas após sua fundação, o centro consolida-se como referência ao integrar inteligência geográfica, dados de satélite e frotas de aeronaves remotamente pilotadas para proteger ecossistemas ameaçados.

No meio da Reserva Natural Guaricica, em Antonina, no litoral paranaense, geógrafos capacitam outros profissionais na operação de drones. Fotos: Pedro Parreira

O capitão da Polícia Militar do Paraná Rafael Freitas da Silveira destaca a importância do aprendizado contínuo intermediado pelo Lageamb para o fortalecimento das operações de campo. Para a instituição, a incorporação de técnicas modernas de análise geográfica e espacial não representa apenas um avanço operacional, mas uma mudança estratégica na rotina de trabalho. O uso de inteligência de dados permite uma atuação mais preventiva.  “Para o batalhão, isso se traduz em uma ferramenta extremamente importante, que poderemos utilizar de forma prática no nosso dia a dia”, afirmou.  

A busca por inovação e o desejo de migrar para novas áreas de atuação levaram o agente ambiental Karol Wojtyla, que atua no ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em Curitiba, a buscar qualificação no uso de veículos aéreos não tripulados. Ele participou da capacitação realizada na Reserva Natural Guaricica, unindo uma paixão antiga por eletrônicos às necessidades práticas do seu dia a dia profissional. 

Com formação na área de Tecnologia da Informação (TI), Karol relatou que o interesse por esse tipo de ferramenta vem desde a infância, quando já se dedicava a explorar o funcionamento de brinquedos de controle remoto. Diante de um mercado de TI saturado, ele enxergou no manuseio de drones a oportunidade ideal para diversificar suas habilidades em áreas como geoprocessamento e sensoriamento remoto.  “Aproveitei a oportunidade para a gente fazer esse curso de drone, no qual posso aplicar no meu dia a dia”, explicou o agente ambiental. 

Agente ambiental Karol Wojtyla durante capacitação na Reserva Natural Guaricica. Foto: Pedro Parreira

Além de otimizar os trabalhos de monitoramento, Karol projeta o uso dos equipamentos para fins institucionais e de lazer dentro das unidades de conservação. Segundo ele, as imagens capturadas também poderão ser utilizadas em ações recreativas e na produção de material publicitário voltado para os visitantes dos parques da região. 

De acordo com a mestranda em Ciências Geodésicas Laura Krama, geógrafa e bolsista do Lageamb, a capacitação superou as expectativas em termos de envolvimento e cooperação. “É muito positivo ver diferentes instituições reunidas, participando, trocando ideias e esclarecendo dúvidas, com todo mundo empenhado em voar desde o primeiro momento”, afirmou a especialista, que foi uma das responsáveis por ministrar a capacitação. 

Géografa Laura Krama (de preto) durante a capacitação realizada na Reserva Natural Guaricica. Fotos: Pedro Parreira

Segundo a geógrafa, este esforço conjunto entre instituições não só dota o pessoal técnico de maior autonomia em termos de ferramentas de sensoriamento remoto, mas também assegura uma resposta mais ágil e uma gestão territorial integrada e eficiente em todo o litoral. A tenente Hérica Mota, integrante do setor de geoprocessamento do Batalhão de Polícia Militar Ambiental, destacou que o batalhão já utilizava dados de geoprocessamento baseados em imagens de satélite. No entanto, as características climáticas do litoral paranaense — marcadas pela constante e densa cobertura de nuvens — muitas vezes dificultam a captação de dados detalhados. A introdução de veículos aéreos não tripulados surge, portanto, como uma solução complementar e estratégica. “Essa capacitação serve para abrir nossas percepções e mostrar como podemos empregar a tecnologia”, explicou a tenente. 

Profissionalização e rigor operacional 

Para fazer frente à crescente demanda e complexidade das operações aéreas, o laboratório deu um passo decisivo em 2026 com a criação do Grupo de Trabalho (GT) dos Drones. Coordenado por uma equipe técnica, o GT nasceu com o objetivo de regulamentar, profissionalizar e otimizar as atividades aeroespaciais do laboratório, garantindo rigor metodológico, científico e total segurança operacional. 

A doutora em Geografia Marianne Oliveira, geógrafa e integrante da equipe técnica do Lageamb, explica que as atribuições do grupo vão além da triagem operacional: “A nossa proposta foi estruturar um grupo de trabalho voltado à regulamentação e profissionalização das atividades desenvolvidas no âmbito do Lageamb, buscando garantir maior rigor técnico, científico e operacional. Além da criação de procedimentos internos relacionados à regulamentação das atividades, organização operacional, gestão de agendas e de equipamentos para diferentes projetos, o grupo tem o foco principal em pesquisa e desenvolvimento”. As aeronaves remotamente pilotadas auxiliam os levantamentos de campo em temas fundamentais para o laboratório como diagnósticos fundiários, análises de ameaças e riscos climáticos, conservação da natureza e mapeamento de comunidades tradicionais. 

Com o uso de ferramentas avançadas de sensoriamento e modelagem espacial, diagnósticos que antes exigiam um mês de trabalho de campo agora são executados em menos de uma semana, representando um salto de eficiência para pesquisadores e órgãos ambientais. 

A grande vantagem da metodologia está no detalhamento das informações geradas. Ao trabalhar com a resposta espectral dos objetos terrestres, integrado a informações de posição, é possível classificar, quantificar e separar os elementos da cobertura do terreno. Ao sobrepor esses dados tridimensionais, é possível calcular e estimar com elevado grau de precisão o volume de biomassa de uma área — dado essencial para mensurar o carbono estocado e avaliar a saúde das florestas em tempo real.  

 

Aeronaves das instituições que participaram da capacitação na Reserva Guaricica. Foto: Pedro Parreira

Parceria científica para mapeamento de paisagens úmidas 

A produção de ciência ganha ainda mais força quando aliada à precisão dos dados geográficos. No âmbito da parceria entre o Lageamb e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Wetscape, por exemplo, foi criado o Grupo de Trabalho do Sensoriamento Remoto, responsável por desenvolver uma metodologia inovadora, usando sensores remotos orbitais, integrados a tecnologia embarcada em aeronaves, com o uso do LiDAR para mapear, em nível de detalhe as paisagens úmidas do país, e atendendo a precisão exigida nas normativas.  

A equipe planeja expedições de campo para aplicar o método em áreas prioritárias de biodiversidade. “Como a equipe do Lageamb integra a rede e também é responsável pelos levantamentos aéreos nas Paisagens Úmidas, esta metodologia proposta atuará de forma complementar às análises remotas, que serão pensadas no GT. Considerando a abrangência espacial das diferentes paisagens úmidas, será realizada a combinação de dados obtidos de diferentes formas, e que permitirá ampliar a caracterização das áreas e dos macro habitats”, explica Marianne.  

Geógrafa Marianne Oliveira (à frente, segurando um controle de um drone) e equipe do INCT Westcape. Foto: Thiago Benites
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