Cientistas e gestores constroem guia para adaptação climática em unidades de conservação

Oficina realizada na Reserva Natural Salto Morato promoveu uma discussão sobre estratégias para preparar unidades de conservação brasileiras para os impactos das mudanças climáticas 

Por Cecilia Sizanoski | Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
19 de março de 2026

Em meio à Mata Atlântica do litoral do Paraná, pesquisadores, gestores, representantes do governo e especialistas em clima e biodiversidade se reuniram na Reserva Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba, para discutir um desafio cada vez mais urgente: como preparar as unidades de conservação para os impactos da mudança do clima.

Grupos de trabalho discutiram dimensões do Roteiro Metodológico / Foto: Luan Alves

As unidades de conservação já enfrentam impactos diretos das mudanças climáticas, como eventos extremos, alterações no regime de chuvas e novos riscos para ecossistemas e comunidades que vivem no entorno dessas áreas. Para o gestor da Reserva Natural Salto Morato, André Zecchin, esse cenário torna cada vez mais necessário incorporar a chamada “lente climática” na gestão das áreas protegidas. 

“A construção desse roteiro traz a lente climática para o planejamento e destaca a importância de trabalhar a adaptação às mudanças climáticas nas unidades de conservação, já que os efeitos do clima impactam tanto as pessoas quanto a biodiversidade”

Afirma Bruno Gurgatz.  

Um roteiro para orientar a adaptação

Para enfrentar esses desafios, pesquisadores estão desenvolvendo um Roteiro Metodológico para a elaboração de planos de adaptação às mudanças climáticas em unidades de conservação. A iniciativa é conduzida pelo projeto Adaptando Unidades de Conservação, coordenado pelo pesquisador Bruno Gurgatz do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná em parceria com a Fundação Grupo Boticário e a Mar Brasil.

O objetivo é oferecer um guia prático que ajude gestores a elaborar planos de adaptação climática e preparar essas áreas para lidar com um cenário ambiental em rápida transformação. 

Estamos desenvolvendo um guia para que os gestores consigam elaborar planos de adaptação climática e preparar essas áreas para enfrentar os impactos das mudanças do clima”

Explica Gurgatz 

O gerente de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, André Ferretti, também esteve no evento e destacou que as unidades de conservação desempenham um papel estratégico tanto na mitigação quanto na adaptação às mudanças climáticas, contribuindo para aumentar a resiliência dos territórios. 

A proposta foi debatida durante a Oficina do Roteiro Metodológico de Adaptação às Mudanças Climáticas em Unidades de Conservação, realizada na Reserva Natural Salto Morato, no litoral do Paraná entre os dias 10 e 13 de março de 2026. A programação incluiu discussões sobre conceitos, diretrizes, etapas de implementação e estratégias de monitoramento das ações de adaptação

Construção coletiva

Um dos princípios da iniciativa é que o roteiro seja construído de forma colaborativa, reunindo diferentes áreas de conhecimento e experiências de gestão. “Assim, a gente consegue integrar diversas instituições e profissionais com diferentes visões na elaboração do roteiro. Isso ajuda a construir um documento capaz de atender às especificidades das unidades de conservação no Brasil”, afirma Gurgatz. 

Durante a oficina, pesquisadores, gestores e especialistas discutiram como incorporar cenários climáticos no planejamento das áreas protegidas e como adaptar estratégias de gestão já existentes. 

As discussões também abordaram como decisões práticas de gestão, como localização de estruturas, planejamento de trilhas ou organização do uso público, precisam considerar cenários climáticos e possíveis riscos ambientais. Nesse contexto, Juliana Ribeiro, da Fundação Grupo Boticário, destacou a importância de incorporar projeções climáticas futuras no planejamento ambiental.

Já a analista ambiental do ICMBio e coordenadora de emergências climáticas do órgão, Cláudia Sacramento, destacou que a iniciativa representa um avanço importante para a gestão dos territórios diante da crise climática.

“Esse evento é um marco dentro do processo de gestão de territórios, porque nos faz olhar para como as mudanças climáticas estão impactando tanto a biodiversidade quanto o modo de vida das populações e comunidades tradicionais, e como podemos nos preparar para responder a esses impactos”, afirma. 

Foto: Luan Alves

Ciência, gestão e políticas públicas

Adriana Baema, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente, fala sobre o Plano Clima / Foto: Luan Alves

Participaram do encontro técnicos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, conectando o trabalho do projeto às estratégias nacionais de adaptação. João Felipe Iura Schafaschek, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente, destacou que a iniciativa dialoga diretamente com o Plano Clima Adaptação, política nacional voltada ao fortalecimento da resiliência do país diante das mudanças climáticas. 

Adriana Bayma, também analista ambiental do ministério, ressaltou a convergência entre o roteiro metodológico em desenvolvimento e o Plano Nacional de Adaptação da Biodiversidade, que orienta ações do governo federal para enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas. 

Segundo Sávio Raeder, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o roteiro pode ajudar a transformar diretrizes nacionais de adaptação climática em instrumentos aplicáveis na gestão das áreas protegidas

“O roteiro tem um papel fundamental para as unidades de conservação, pois ajuda a territorializar políticas públicas de adaptação climática e mobilizar evidências científicas para apoiar o planejamento e a gestão dessas áreas”, explica.  

Próximos passos

As contribuições discutidas durante a oficina serão sistematizadas para compor a versão final do roteiro metodológico. 

A expectativa é que o documento funcione como referência para gestores de unidades de conservação em diferentes regiões do país, oferecendo orientações práticas para incorporar a adaptação climática no planejamento e na gestão dessas áreas. 

Luiz Felipe Pimenta de Moraes, analista ambiental do ICMBio que atua na elaboração e revisão de planos de manejo, destacou que a iniciativa busca gerar ferramentas aplicáveis no território e úteis para os gestores diante de um cenário climático em constante transformação. ” Buscamos trazer a lente climática para o planejamento e gestão das Unidades de Conservação, que é um desafio que vem se mostrando cada vez mais necessário de ser olhado”, afirma.

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