Turismo de natureza pode combater crise climática e fortalecer comunidades locais

No Dia Mundial do Turismo Ecológico (01/03), especialistas defendem que o futuro do setor passa por justiça social, governança local e adaptação climática

Por Cecilia Sizanoski/ Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
01 de março de 2026

O turismo em áreas naturais pode gerar renda para a região, conservar ecossistemas e fortalecer culturas locais, mas também tem potencial para ampliar desigualdades e pressões ambientais. A diferença está menos na paisagem e mais em como a atividade é organizada, quem decide sobre ela e para onde vai o dinheiro que circula.

Foto: Gabriel Marchi

Para o professor do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bolsista docente do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), Vander Valduga, tudo depende de como esse turismo é planejado. Ele aponta que a antiga premissa de que é possível viajar sem gerar impacto já não se sustenta. “O turismo não está deslocado do meio capitalista. Ele participa de um sistema que opera em um planeta de recursos finitos”, afirma. A atividade depende de transporte, energia e consumo, e muitas vezes contribui para impactos negativos, de forma que, como lembra Valduga, a própria pesquisa em Turismo nasceu para estudar os estragos causados pelo turismo de massa.

Diante disso, o debate mudou. Segundo Valduga, nomenclaturas diversas, como turismo ecológico, sustentável, ecoturismo, convergem hoje para uma mesma abordagem: o turismo regenerativo. A proposta busca gerar benefícios econômicos, ambientais, sociais e culturais, colocando “os núcleos receptores e as comunidades como protagonistas desse processo”, explica.

Para a turismóloga e gestora do projeto Adaptando Destinos Turísticos, do Lageamb, Amanda Liara de Azambuja Corrêa Selivon, o turismo regenerativo vai além da sustentabilidade tradicional: “O regenerativo traz uma mudança de paradigma: a relação do eu comigo mesmo, com o outro e com a natureza”, diz. Nessa lente, a natureza deixa de ser “recurso a ser explorado” e passa a ser parte de um sistema do qual o ser humano também faz parte.

Produzir natureza: a experiência da Grande Reserva Mata Atlântica

Foto: Calango Expedições

Alguns territórios já colocam essa lógica em prática. É o caso da Grande Reserva Mata Atlântica (GRMA), iniciativa que reúne atores públicos, privados e comunitários no maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do mundo para promover ações de desenvolvimento regional focadas no turismo de natureza. O grupo trabalha com o conceito de Produção de Natureza. “Conservar não significa apenas proteger o que resta, mas gerar condições para que a natureza prospere, restaurando ecossistemas e fortalecendo economias locais”, explica Ricardo Borges, Coordenador de Comunicação e Parcerias Estratégicas da GRMA. “O turismo é uma ferramenta estratégica: transforma paisagens conservadas em oportunidades econômicas, gerando renda e incentivando a manutenção da floresta em pé”, explica.

Na prática, a iniciativa investe na qualificação de empreendedores locais e no fortalecimento do turismo de base comunitária. “As comunidades são protagonistas. São elas que detêm os conhecimentos que tornam a experiência autêntica. Quando participam ativamente, criam-se incentivos concretos para conservar”, afirma Borges.

“Quando bem estruturado, o turismo não apenas reduz pressões sobre os ecossistemas, mas ajuda a financiar sua conservação, valoriza identidades culturais e amplia a consciência ambiental de visitantes e moradores. Na Grande Reserva Mata Atlântica, enxergamos o turismo como uma das expressões práticas dessa produção de natureza, um mecanismo capaz de alinhar conservação e desenvolvimento.”
~ Ricardo Borges, Coordenador de Comunicação e Parcerias Estratégicas da GRMA

As condições para o protagonismo comunitário

Para Vander Valduga, o protagonismo comunitário só é possível quando a atividade turística garante renda distribuída, estabilidade econômica e condições dignas de trabalho. “De que adianta ter todo um discurso ambientalmente correto se temos subemprego?”, questiona. Para ele, a sustentabilidade não se sustenta sem justiça social. “Com empobrecimento, não vamos ter justiça ambiental. A qualidade de vida das pessoas é a base de tudo.”

Foto: Reginaldo Ferreira

Um dos fatores centrais nessa equação é o caminho que o dinheiro percorre. Quanto maior a cadeia de intermediação entre o turista e o destino, menos justas tendem a ser as trocas. O problema se agrava quando grandes operadoras contratam empresas locais que, por sua vez, subcontratam outras, que contratam os guias e trabalhadores. “Lá no meio, a responsabilidade se perde porque um fica repassando para o outro”, explica o professor. Nesse modelo, artesãos, pequenos restaurantes e guias recebem menos, enquanto a maior parte da renda sai do território. Por outro lado, com menos intermediários, a negociação se torna mais direta e as reivindicações das comunidades ganham mais força.

Essa visão é corroborada pelo Ministério do Turismo. O livreto Ecoturismo: Orientações Básicas, lançado em 2010, defende que os benefícios devem ser revertidos de forma equitativa às populações locais, que precisam ser integradas desde o início ao processo de planejamento e gestão. O documento ressalta que “o envolvimento comunitário é fundamental para a conservação”, porque são as comunidades que detêm um conhecimento singular sobre o território.

A importância da governança

Além da renda e da desintermediação, a governança é outro pilar decisivo. Valduga explica que o Brasil possui um sistema de política pública de turismo bem desenhado, mas o desafio é a aplicação na ponta. Para isso, existem os Conselhos Municipais de Turismo, estruturas suprapartidárias que reúnem agentes públicos e privados para organizar a política de turismo nas regiões. “A ideia é que elas guardem a memória e garantam a continuidade das estratégias, independentemente de mudanças de governo”, afirma.

O problema, segundo ele, é que muitas vezes estados e municípios “aparelham” essas instâncias, colocando agentes políticos partidários e tirando o poder de decisão dos Conselhos: “Quando as instâncias de governança são apenas consultivas, é um desastre. Quando são deliberativas, com poder de decisão sobre a aplicação de recursos, as coisas funcionam”.

A escala da atividade também não pode ser ignorada: “A principal questão é a escala com que a gente trabalha”, resume o professor. Fluxos concentrados em curtos períodos pressionam a infraestrutura e os ecossistemas. Controlar o número de visitantes, estabelecer limites de carga e organizar o calendário turístico são medidas necessárias para evitar que o turismo amplie vulnerabilidades.

O clima já mudou o turismo

Ao ser questionada se é necessário que os destinos de turismo de natureza recebam atenção especial quanto ao clima, a gestora do projeto Adaptando Destinos Turísticos afirma: “Não dá mais para esperar. Estamos em emergência climática”. A crise climática já afeta diretamente a atividade. Eventos extremos, alterações no regime de chuvas e variações de temperatura impactam trilhas, cachoeiras e a infraestrutura dos destinos. Adaptação, portanto, significa repensar calendários de visitação, protocolos de segurança e o próprio tipo de experiência oferecida.

Na Reserva Natural Salto Morato, unidade de conservação mantida pela Fundação Grupo Boticário, as fortes chuvas e ventos intensos causam impactos para o turismo e para o manejo do espaço. Esse ano tivemos que fechar a Reserva em função de enchentes, afirma André Zecchin gestor da Reserva.

É exatamente essa transformação que o projeto Adaptando Destinos Turísticos busca implementar na prática. A iniciativa é uma parceria da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza com o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais da UFPR e tem como objetivo central desenvolver um plano de adaptação climática para a Grande Reserva Mata Atlântica. “A gente quer fazer um diagnóstico do clima e das suas vulnerabilidades no território”, detalha Amanda. A partir desse diagnóstico, o projeto prevê a criação de três programas: um de comunicação, um de práticas de turismo sustentável e  um de controle de visitação em unidades de conservação. “O conjunto desse movimento vai gerar diretrizes para um plano de adaptação climática que ajude a Grande Reserva a se tornar um exemplo, uma referência nacional para outros destinos de natureza”.

Foto: Zig Koch

Para a Grande Reserva Mata Atlântica, integrar esse projeto é estratégico. Segundo Ricardo Borges, a participação “permite aprimorar metodologias, testar soluções e fortalecer capacidades para lidar com desafios contemporâneos do setor, como mudanças climáticas, resiliência territorial e qualificação da experiência turística”. Ele conclui que iniciativas como essa “ajudam a posicionar o território como referência em turismo sustentável” e contribuem para consolidar um modelo de desenvolvimento que integra “conservação da natureza, inovação e inclusão socioeconômica”.

A iniciativa busca criar uma metodologia replicável. “É uma oportunidade de trazer visibilidade nacional para a Grande Reserva e mostrar que é possível antecipar ações, implementar pilotos e transformar a região em referência em resiliência e adaptação climática”, finaliza Amanda.

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