Ciência e saberes tradicionais buscam conservar paisagens úmidas no Brasil 

No dia 2 de fevereiro é celebrado o Dia Mundial das Zonas Úmidas e em 2026, a data tem como tema global o conhecimento tradicional e a valorização do patrimônio cultural

Por Cecilia Sizanoski | Agência Escola UFPR
02 de fevereiro de 2026

Onde a terra encontra o mar, os manguezais formam uma paisagem influenciada pelas marés e pela água salgada. Com árvores de raízes expostas e grande biodiversidade, eles protegem a costa e ajudam a combater as mudanças climáticas ao armazenar grande quantidade de carbono. Apesar da importância, sofrem com a poluição e a expansão urbana. O espaço faz parte de uma das muitas zonas que compõem as paisagens úmidas brasileiras, áreas onde a água aparece de maneira permanente ou periódica, e influencia diretamente o solo, a vegetação e todo tipo de vida. Mesmo trechos que parecem secos em determinados momentos fazem parte dessas paisagens.  

“Falamos em paisagens úmidas porque não se trata de um único ambiente. Existe um gradiente entre o aquático e o terrestre, com diferentes macro-habitats que se conectam. Se você rompe uma dessas partes, compromete o funcionamento do todo”

 Coordenador Geral da Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras, Jochen Schöngart 

Representadas por manguezais, várzeas amazônicas, banhados, brejos e estuários, as zonas úmidas ocupam cerca de um quinto do território da América do Sul de acordo com o Global Wetlands Outlook de 2018. O relatório também indica que aproximadamente 40% das espécies do planeta dependem direta ou indiretamente de zonas úmidas em alguma fase da vida.  

Além de abrigar grande biodiversidade, as áreas úmidas são reconhecidas pelo valor dos serviços ecossistêmicos que realizam. A Coordenadora do Sistema Costeiro de Paisagens Úmidas Costeiras do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Rede Paisagens Úmidas Brasileiras, iniciativa científica brasileira, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), focada no estudo e conservação de paisagens úmidas, Yara Schaeffer Novelli, aponta alguns desses serviços. Um deles é o papel de “esponjas naturais”. As áreas úmidas são capazes de absorver grandes volumes de água durante períodos chuvosos e liberar de forma gradual em épocas de seca, ajudando a reduzir enchentes e a regular o fluxo dos rios.  

De acordo com a pesquisadora, as áreas são também grandes fixadoras de carbono, especialmente em ambientes costeiros como manguezais. Segundo Novelli, esses mecanismos são vitais em um cenário de mudanças climáticas. “Quando essas áreas são degradadas, perde-se a capacidade natural de amortecer extremos. O resultado é o aumento da frequência e da intensidade de cheias e secas severas, especialmente em ecossistemas já fragilizados”, explica.; Outra integrante da rede, que também atua como Coordenadora Geral do projeto Guardiões dos Manguezais e Consultora Técnica da MarBrasil, Sarubo, ressalta que a presença da água nesses ambientes influencia o clima local e regional. “A água tem grande capacidade de armazenar calor, o que ajuda a reduzir extremos de temperatura”, explica. 

De acordo com a Secretaria Geral da Convenção de Zonas Úmidas, há 27 áreas úmidas designadas como de importância internacional e o Brasil detém a maior extensão total desses sítios entre todos os países / Foto: Laura Krama

Outro exemplo, são os trajetos traçados por aves migratórias, que contam, quase sempre, com pousos em zonas úmidas para utilizar da abundância hídrica e alimentar. Como elas passam longos períodos voando, podem perder até metade do próprio peso com o esforço. Dessa forma, utilizam estes ecossistemas como “trampolins ecológicos” para se restabelecer e poder seguir o trajeto. De acordo com Yara Schaeffer Novelli, caso as zonas úmidas não existissem, muitas dessas espécies estariam ameaçadas.

Foi por conta dessa constatação que ocorreu o reconhecimento internacional da relevância ecológica das zonas úmidas no ano de 1971. Foi o ano da assinatura da Convenção de Ramsar no Irã, um tratado intergovernamental voltado à pesquisa e conservação desses ambientes.  “No começo, a preocupação era com as aves. Depois, ficou claro que essas áreas também são fundamentais para os ciclos de vida dos peixes e outros vários organismos”, explica Novelli.

Ameaças e conservação

Apesar do reconhecimento crescente, esses ambientes estão entre os mais ameaçados do planeta. O relatório de Ramsar de 2018 revela também que no mundo foram perdidas 87% das áreas úmidas desde o século XVIII. A degradação ocorre em um ritmo três vezes mais acelerado que o das florestas naturais. Para o Coordenador Geral da Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras, Jochen Schöngart, a principal pressão vem da ação humana. “Hoje em dia, a humanidade é a maior ameaça para as áreas úmidas, não só pela mudança do clima, mas também pelas alterações do uso da terra”, diz. Entre os principais impactos estão o desmatamento das cabeceiras dos rios, a drenagem para aquicultura, pecuária e mineração, a contaminação da água e a construção de usinas hidrelétricas. 

Sarah aponta que em caso de devastação desses ambientes, serviços ecossistêmicos serão perdidos e serão necessárias intervenções humanas para mitigar os efeitos negativos disso. Isso custa dinheiro: “Os serviços ecossistêmicos das áreas úmidas têm um valor econômico de bilhões de dólares por ano. Quando se coloca esse valor na ponta do lápis, fica claro que conservar áreas úmidas também é uma decisão econômica”, afirma. 

O Complexo Estuarino de Paranaguá é um dos ambientes estudados pela Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras/ Foto: arquivo Lageamb

No Brasil, o Dia Mundial das Zonas Úmidas coincide com o dia dedicado a Iemanjá, a orixá proeminente nas religiões Afro-brasileiras, como o Candomblé e Umbanda, considerada “Rainha das águas, mares e oceanos”. “É uma coincidência que tem um poder afetivo e cultural muito forte no Brasil”, avalia Yara, “Aqui, associamos a proteção dos sistemas costeiros marinhos, do estuário, do manguezal, da praia com a Iemanjá. Isso é importante porque se torna uma marca cultural.”  

Figuras do folclore brasileiro, como o Saci, a Vovó do Mangue e o Curupira, também estão ligadas a esses ambientes. Segundo a pesquisadora, a destruição dessas paisagens compromete referências simbólicas que não podem ser reconstruídas. “Quando uma área úmida é destruída, não se perde só um ambiente natural. Perde-se memória, cultura e identidade”, afirma 

Pesquisa para a conservação

A produção de conhecimento tem sido uma ferramenta central para enfrentar esses desafios. No Brasil, pesquisadores de universidades, institutos e organizações da sociedade civil atuam de forma articulada para mapear e compreender as zonas úmidas. Yara destaca que essa diversidade de atores amplia a leitura sobre o território. “Cada grupo olha para a área úmida de um jeito. Tem quem estude com instrumentos científicos, tem quem observe pela história, pela cultura, pela vivência. Essa necessidade de conhecer é orientada pelos objetivos de cada grupo”, afirma. 

Os manguezais estão entre os ecossistemas que mais armazenam carbono no planeta de acordo com o Inventário das Áreas Úmidas Brasileiras / Foto: Clemente Coelho Junior

Nesse sentido, surge o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Rede Paisagens Úmidas Brasileiras, articulação nacional de pesquisadores com o objetivo de compreender mais sobre as zonas úmidas. De acordo com o coordenador geral da rede, o grupo busca compreender melhor como funcionam os macro-habitats que compõe as diversas paisagens úmidas brasileiras atualmente: “Principalmente com essa visão holística, nós podemos avançar em estudar esses complexos paisagísticos, com essa enorme heterogeneidade”, afirma. O pesquisador ressalta que esse trabalho exige integração entre aspectos ecológicos, sociais, culturais, políticos e legais. Uma visão fragmentada, segundo ele, limita a capacidade de resposta diante da complexidade dos sistemas. 

A rede científico-tecnológica é formada por 76 pesquisadores de 26 instituições nacionais e internacionais de excelência e financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Das dezenas de paisagens úmidas que ocorrem no Brasil foram selecionadas sete para serem estudadas, agrupadas em dois eixos temáticos, as do sistema costeiro-marinho (coordenada pela Yara) e as interiores (coordenada pela pesquisadora Maria Teresa Fernandez Piedade). No sistema costeiro-marinho serão abordadas a Restinga de Jurubatiba, o Complexo Estuarino de Paranaguá e o Taim. Já as paisagens úmidas interiores abrangem a região do Interflúvio Rio Negro-Rio Branco; as Áreas Alagáveis da Amazônia Centra, o Araguaia/Ilha do Bananal e o Pantanal Matogrossense. 

A pesquisadora Sarah Charlier Sarubo integra diferentes instituições que fazem parte do INCT e destaca o valor dessa integração. Enquanto uma entidade se interessa por estudar a fauna, outra pode se debruçar sobre outros aspectos, e, unidas podem alcançar resultados que não seriam possíveis por conta própria. “A palavra ‘rede’ é importante. São muitos pesquisadores e projetos se integrados para um objetivo geral único”, avalia. Para ela, é somente através do conhecimento sobre as áreas úmidas que se torna possível montar estratégias eficazes de conservação: “Classificar e mapear os macro-habitats é o primeiro passo para proteger essas áreas. Se a gente não conhece e não mapeia essas áreas, não consegue protegê-las.” 

Todos os anos, a Convenção de Ramsar define um tema para orientar as celebrações do Dia Mundial das Zonas Úmidas. Em 2026, o foco será “Zonas úmidas e conhecimento tradicional: celebrando o patrimônio cultural”. A escolha reforça o reconhecimento de que esses territórios sempre foram ocupados por populações humanas. Para Jochen, harmonizar esses dois campos de saber é um desafio central. “Temos populações que dependem dessas áreas há centenas ou milhares de anos e a academia, que chega com outras abordagens. O desafio é casar esses conhecimentos para potencializar a conservação”, afirma. Segundo ele, a integração de diferentes perspectivas amplia a capacidade de resposta diante das pressões ambientais que ameaçam as zonas úmidas no Brasil. 

Conheça os cientistas!

Yara Schaeffer Novelli

Bacharel e Licenciada em História Natural pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, 1965. Mestre em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanografico da Universidade de Sao Paulo, Sao Paulo, 1970. Doutorado em Ciências, área de Zoologia, Instituto de Biociências da Universidade de Sao Paulo, 1976. Lovre-Docência em Oceanografia Biológica, Instituto Oceanografico da Universidade de Sao Paulo, 1991. Professor Sênior, Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, desde 1998 até o presente. Membro do Grupo de Especialistas em Manguezal, União Internacional de Conservação da Natureza – IUCN. Ponto Focal do Brasil junto ao Painel Técnico e Científico da Convenção de Ramsar. Mãe e Avó.

Sarah Charlier Sarubo

Oceanógrafa pela Universidade de São Paulo (IO/USP), é membro da Rede de Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros (ReBentos) e do Grupo de Pesquisa do CNPq Monitoramento Integrado de Manguezais (MIM) desde 2015. Atualmente é pesquisadora consultora na Associação MarBrasil, atuando no REBIMAR (Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha), onde coordena o componente de pesquisa Manguezal. É coordenadora geral do projeto de extensão Guardiões dos Manguezais Parnanguaras e coordena as pesquisas no estado do Paraná na Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras (INCT Wetscape). 

Jochen Schöngart

Tem experiência em pesquisas com foco em áreas úmidas para estudar impactos causados por mudanças climáticas e alterações do uso da terra integrando conhecimentos de diversas áreas. É doutor em Ciências Florestais pela Universidade Georg-August em Göttingen, da Alemanhapossui Livre-Docência também em Ciências Florestais pela Universidade Albert-Ludwig em Freiburg. É Pesquisador Titular e Conselheiro da Coordenação de Pesquisas em Dinâmica Ambiental (CODAM) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus, membro e vice-coordenador do grupo de pesquisa MAUA (Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas) e coordenador do Laboratório de Dendroecologia. Docente nos Programas de Pós-Graduação do INPA de Ecologia (PPG-ECO), Ciências de Florestas Tropicais (PPG-CFT) e Mestrado Profissional em Gestão de Áreas Protegidas na Amazônia (PPG-MPGAP). Membro do Painel Científico para a Amazônia (SPA) e dos Comitês Científicos do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e do Projeto ATTO (Amazon Tall Tower Observatory). Membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU/MMA) e dos Conselhos Deliberativos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã e da Reserva Extrativista Baixo Rio Branco-Jauaperi. Atualmente coordenador do Projeto PELD-MAUA (Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração; CNPq/FAPEAM) e coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras (INCT WETSCAPE; MCTI/CNPq). 

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