Ferramenta criada pelo Lageamb identifica restrições e agiliza serviços no litoral do Paraná

Pesquisadores do laboratório criaram plugin gratuito que cruza dados sobre áreas protegidas e ajuda analisar obras e preparar fiscalizações  

Equipe de Comunicação do Programa Biodiversidade, com colaboração do Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência 
13  de agosto de 2026

Pesquisadores do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná (Lageamb/UFPR), integrantes do projeto GeoLitoral, financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), acabam de lançar uma ferramenta inédita para consultar informações ambientais sobre o litoral paranaense. A partir da localização de uma propriedade, construção, obra ou ocorrência ambiental, o plugin mostra se o local está em uma Unidade de Conservação (UC), Área de Preservação Permanente (APP), terra indígena, terreno de marinha ou outro espaço sujeito a regras específicas. 

A ferramenta ajuda a responder três questões: quais características ambientais existem no local, quais regras precisam ser consideradas e qual instituição deve analisar uma solicitação relacionada à área. O resultado é apresentado em um relatório com mapas que pode ser salvo em PDF. O plugin é instalado no QGIS, programa gratuito utilizado para produzir e analisar mapas digitais. Em vez de procurar cada dado em um sistema diferente e reunir os arquivos manualmente, o usuário informa a localização que deseja consultar e recebe as informações organizadas. 

Exemplos das interfaces disponíveis pela plataforma. Fotos: reprodução

“Nem sempre as equipes órgãos ambientais ou de gestão pública têm um profissional que trabalhe com geoprocessamento ou facilidade para acessar todos os dados, porque as informações estão dispersas. É preciso buscar os arquivos, reunir tudo no software e fazer a análise manualmente. O plugin já gera um relatório e facilita esse trabalho”, explica Laura Krama, geógrafa do Lageamb e subcoordenadora do GeoLitoral. 

Geógrafa Laura Krama durante apresentação do plugin. Foto: Maíra Gioia

Ferramenta pode ser usada por diferentes públicos 

Um dos possíveis usos do plugin é apoiar pedidos de ligação de energia no litoral. Quando a concessionária recebe uma solicitação, precisa verificar se o imóvel está em uma UC federal ou estadual, APP, manguezal ou terreno de marinha. A localização pode indicar indica qual instituição deve receber o pedido. O órgão responsável analisa as regras aplicáveis e decide se a ligação pode ou não ser autorizada. Reunindo essas informações em uma única consulta, o plugin ajuda a encaminhar a solicitação corretamente e pode acelerar a resposta ao morador. 

“A ferramenta é acessível à população em geral. Antes de uma construção, o relatório permite verificar a proximidade de rios, manguezais e outras áreas protegidas. Com essas informações, é possível direcionar melhor a escolha do local e evitar infrações ambientais”, acrescenta Laura.  

Para a fiscalização ambiental, o plugin pode ser usado antes de uma vistoria. Quando recebe uma denúncia de desmatamento, por exemplo, o profissional insere a localização e verifica se o ponto está em uma área protegida e se existem registros anteriores de infração ou embargo. Com essa leitura, pode definir o que precisa conferir e chegar ao campo conhecendo as características do lugar. “É importante destacar que a ferramenta direciona a ação de campo, mas não elimina a necessidade de vistoria em campo. Trabalhamos com dados em escalas regionais, mas cujas informações precisam ser validadas a nível local”, pontua Laura.   

Profissionais que analisam licenciamentos ambientais podem desenhar no mapa o espaço ocupado por uma obra ou empreendimento. O relatório mostra quais áreas protegidas estão dentro ou próximas desse limite e se há comunidades tradicionais nas proximidades. O resultado ajuda a identificar os estudos, as autorizações e as instituições que deverão fazer parte do processo. Já equipes responsáveis por ocorrências ambientais podem consultar dados sobre rios e unidades hidrográficas, por exemplo. Em caso de derramamento de óleo ou de outra substância, essas informações ajudam a estimar quais regiões podem ser atingidas e a organizar as ações de resposta. 

Integrante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental durante workshop sobre o uso do plugin. Foto: Marcelo Teixeira
Integrante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental aprendendo a reunir informações com o uso do plugin. Foto: Marcelo Teixeira

Como o plugin encontra as informações 

Os mapas digitais são formados por camadas, cada uma delas mostrando um tipo de informação, como áreas de rios, manguezais e UC. O plugin coloca as camadas escolhidas sobre a localização informada pelo usuário e identifica quais delas coincidem naquele espaço. A primeira versão já reúne cerca de 17 camadas principais, organizadas em quatro grupos: restrições ambientais, áreas de uso especial, registros de infrações, embargos e informações que ajudam a compreender as características do local, como a cobertura da terra e as unidades hidrográficas. 

“O plugin automatiza uma rotina de geoprocessamento para recortar a área, calcular e entregar um relatório final mostrando o mapa”, explica o geógrafo do Lageamb Marcelo Teixeira, responsável pela programação da ferramenta. Os dados utilizados vêm de diferentes sistemas públicos e da Infraestrutura de Dados Espaciais organizada pelo GeoLitoral. Parte das camadas é consultada diretamente nos servidores que mantêm as bases de dados originais. Esse tipo de conexão é usado principalmente para registros que mudam com frequência, como infrações e embargos. Quando a instituição responsável atualiza a base, o plugin pode acessar a nova informação na consulta seguinte. 

O plugin coloca as camadas escolhidas sobre a localização informada pelo usuário e identifica quais delas coincidem naquele espaço. Fotos: reprodução

Trabalho começou pela organização dos dados 

O desenvolvimento do plugin dependeu primeiro da organização das informações geográficas sobre o litoral do Paraná. A equipe do projeto GeoLitoral reuniu aproximadamente 2.500 camadas produzidas em diferentes épocas. Depois de retirar arquivos repetidos, a equipe consolidou uma base com 2.270 camadas. Desse conjunto, foram selecionadas as informações utilizadas na primeira versão da ferramenta. 

Cada arquivo precisou ser conferido e acompanhado de informações sobre autoria, data, escala e método de produção. Esse registro permite que o usuário saiba quem produziu o levantamento, quando ele foi realizado e qual uso pode ser feito daquele dado. Cerca de seis pessoas participaram diretamente do desenvolvimento, entre geógrafos, estudantes de graduação em Geografia e um engenheiro cartógrafo.  

“Foi um esforço gigantesco delimitar as diferentes categorias de Áreas de Preservação Permanente, como as de nascentes, topos de morro e margens de rios, especialmente nos cursos d’água mais largos, que exigem um cálculo mais complexo. Também integramos os terrenos de marinha e revisamos outros limites territoriais. Com essa base organizada, a ferramenta gera um relatório sobre o ponto ou a área informada pelo usuário”, afirma o coordenador do GeoLitoral e do Lageamb, Eduardo Vedor de Paula.  

Como acessar 

O Plugin de Verificação de Restrições Ambientais e Territórios Especiais e o manual de instalação estão disponíveis gratuitamente na página do GeoLitoral. Para utilizar a ferramenta, é preciso instalar o QGIS no computador, baixar o arquivo do plugin e adicioná-lo pelo menu de complementos do programa. Novas edições poderão incorporar outras informações, como planos diretores municipais e planos de manejo de Unidades de Conservação. Como o código é aberto, o plugin também pode ser adaptado para outras regiões que possuam dados geográficos disponíveis e organizados. 

Workshop de aprendizado sobre o funcionamento da ferramenta. Fotos: Laura Krama
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