O desafio é conectar mais de 100 pesquisadores, articular mais de 40 instituições, dialogar com múltiplos territórios e comunicar ciência diversa, colaborativa e socialmente relevante
Por Maíra Gioia
Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
23 de junho de 2026
A produção de ciência ganha ainda mais força quando aliada à precisão dos dados geográficos e à clareza da comunicação pública. É com essa premissa que se consolida a parceria estratégica entre o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), vinculado à Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Wetscape e o Viralume (Laboratório de Comunicação Pública da Ciência), também vinculado à UFPR. O INCT Wetscape é uma rede de pesquisa científica dedicada às paisagens úmidas brasileiras. Esses ecossistemas – que funcionam como uma transição entre a terra e a água, alagados de forma permanente ou temporária – abrigam uma rica biodiversidade adaptada a solos encharcados.
Essas paisagens enfrentam um cenário alarmante de desproteção, pressionadas pelas mudanças climáticas e pelos impactos da ação humana. O resultado é o desequilíbrio ecológico, a perda de espécies e a insegurança para as populações que dependem delas. A articulação entre o Lageamb, o Viralume e o INCT Wetscape estreita os laços entre a produção científica e o impacto socioambiental, unindo núcleos essenciais para o monitoramento e a preservação desses ecossistemas. O desenho dessa cooperação reflete a própria estrutura de liderança dos projetos. O Lageamb assume o protagonismo na linha de frente do Núcleo de Gestão de Dados e do Grupo de Trabalho sobre Sensoriamento Remoto (NGD). Paralelamente, o coordenador do laboratório, professor Eduardo Vedor de Paula, desempenha um papel estratégico como vice-coordenador da Paisagem Úmida (PU) do Complexo Estuarino de Paranaguá, uma das áreas-chave de estudo do instituto.
Para que o conhecimento gerado pela rede ultrapasse os muros da universidade, entra em cena o Viralume. Sob a coordenação da professora Regiane Ribeiro, o laboratório assume a responsabilidade pelo Núcleo de Comunicação Científica (NCC), garantindo que a ciência seja mediada e dialogada com a sociedade, tomadores de decisão e comunidades locais.
O desafio, segundo a professora, é conectar mais de 100 pesquisadores, articular mais de 40 instituições, dialogar com múltiplos territórios e comunicar ciência diversa, colaborativa e socialmente relevante. O objetivo é focar no diálogo e na democratização da ciência. “A divulgação científica cumpre seu papel quando torna o conhecimento científico acessível ao cotidiano das pessoas, mostrando de forma clara como a ciência impacta e contribui para a solução de problemas reais da sociedade”, afirmou.
A proposta é também comunicar o processo científico de modo a dar transparência. ”A ciência não é neutra nem universal; ela é uma prática situada. Por isso, mais do que divulgar apenas resultados e verdades absolutas, nosso desafio na divulgação científica é mostrar como a ciência funciona. Quando as pessoas entendem o processo, elas compreendem que o conhecimento se abre a incertezas e pode mudar a partir de novos estudos”, completou.
À frente do Núcleo de Gestão de Dados e do Grupo de Trabalho sobre Sensoriamento Remoto (NGD), o Lageamb tem como objetivo capacitar os pesquisadores do INCT de forma prática na organização, padronização e espacialização de seus dados, aplicando as diretrizes de um manual técnico de dados geoespaciais desenvolvido pelo laboratório. O trabalho inclui instruir a transição de planilha de texto para dados geoespaciais estruturados; demonstrar o funcionamento de Bancos de Dados Geoespaciais e Infraestruturas de Dados Espaciais, bem como realizar conexões via geosserviços. A parceria inclui, ainda, a orientação sobre a formatação de dados de biodiversidade no padrão Darwin Core e a criação de metadados (EML e Perfil MGB) para garantir a governança e a futura publicação em plataformas como o SIBBR. Os participantes foram alertados de que quanto maior a rede, maior o valor científico da integração e maior o risco de fragmentação se não houver governança de dados.
A grande provocação que se faz aos pesquisadores é entender que a utilidade de uma base de dados não se encerra em seu objetivo primário. Ela pode, no futuro, motivar novas ações, investigações e reinterpretações por outros cientistas. No entanto, para que essa engrenagem de validação e reutilização funcione, é preciso enfrentar os gargalos da documentação, da segurança e da governança de dados. Trabalhar com a gestão e integração de grandes volumes de dados exige um rigor que muitos consideram burocrático ou exaustivo. No entanto, a falta de documentação de métodos, unidades e coordenadas no presente cobra um preço alto no futuro. Tentar integrar bases atuais com dados coletados há três anos que não foram devidamente documentados é um risco alto. “Não vou mentir: trabalhar com grandes dados e gestão de dados é chato. Exige muito cuidado, muito rigor. Mas fazer do jeito certo evita o retrabalho. Um dado complexo sem contexto é um dado comprometido, e quem dá contexto a ele são os metadados. Se deixarmos para registrar as nuances de uma coleta daqui a uma semana, o conhecimento se perde. Precisamos entender que esses dados são um patrimônio da sociedade”, afirmou o pesquisador Valmir Antunes Pereira, do Núcleo de Gestão de Dados e do Grupo de Trabalho sobre Sensoriamento Remoto (NGD) do INCT Wetscape.
I Encontro de Integração do INCT Wetscape “Entre Paisagens”
Embora o trabalho já estivesse em andamento, a parceria ganhou corpo e materialidade durante o I Encontro de Integração do INCT Wetscape “Entre Paisagens” realizado entre os dias 16 e 20 de junho. O evento teve como objetivo principal promover a sinergia entre pesquisadores, bolsistas e as diversas equipes vinculadas à rede nacional de pesquisa.
Durante o encontro, os participantes vivenciaram uma imersão que uniu teoria e prática. A programação contou com: momentos de formação e apresentações institucionais; oficinas práticas e atividades de campo no litoral paranaense e espaços colaborativos focados na construção conjunta de estratégias de comunicação, gestão de dados e sensoriamento remoto.
O resultado desse esforço coletivo é uma rede mais coesa, onde o dado geoespacial e a informação pública caminham juntos para responder aos desafios ambientais contemporâneos. O coordenador do Lageamb, Eduardo Vedor de Paula, destacou que o encontro serviu para apresentar avanços e alinhar os próximos passos, por exemplo, do Grupo de Trabalho (GT) sobre Sensoriamento Remoto, além de fortalecer os já consolidados como o Núcleos de Comunicação e o de Gestão de Dados. “Devemos aprovar nos próximos meses uma política inédita de governança e gestão de dados. A implementação dessa política ocorrerá em nível tático, integrando curadores de dados de cada uma das sete paisagens úmidas. Saímos com metas muito bem estabelecidas que permitirão intensificar as relações no âmbito da rede”, afirmou.
Padronização e Segurança
Para viabilizar as novas diretrizes, foi realizada uma capacitação com as equipes da rede de pesquisa. O objetivo é fazer com que todos os integrantes adotem e sigam a nova política, padronizando os procedimentos de coleta e armazenamento. Segundo os organizadores, o foco da iniciativa está em três pilares fundamentais: a) organização, com a estruturação eficiente do volume de informações coletadas; b) segurança, com a proteção do patrimônio científico gerado e c) robustez analítica, com a garantia de que as análises de longo prazo, já desenvolvidas em cada área de estudo, ganhem ainda mais consistência científica.
O Grupo de Trabalho (GT) sobre Sensoriamento Remoto prevê o desenvolvimento de um novo produto tecnológico voltado para a preservação ambiental. O grupo consolidou uma metodologia inovadora que utiliza a tecnologia LiDAR (detecção e alcance de luz) para o mapeamento de alta precisão das paisagens úmidas brasileiras. Com o novo método validado, os pesquisadores iniciam nos próximos meses o planejamento estratégico para uma série de expedições de campo. O objetivo é aplicar a tecnologia diretamente em áreas críticas e estratégicas do país. O cronograma de visitas técnicas inclui ecossistemas fundamentais para a biodiversidade nacional:
De acordo com os integrantes do GT, a expectativa para as viagens vai além da coleta de dados, representando um importante intercâmbio científico e cultural entre as equipes regionais. “A equipe está muito motivada. Trata-se de uma análise de sensoriamento remoto de ponta aplicada diretamente à agenda da nossa rede de pesquisa”, destacou Vedor. O uso da tecnologia LiDAR promete elevar o patamar dos estudos ambientais no Brasil, permitindo imagens tridimensionais detalhadas da vegetação e do relevo, essenciais para o monitoramento e a conservação das paisagens úmidas diante das mudanças climáticas.
Conheça o Manual Técnico de Gestão e Padronização de Dados Geoespaciais elaborado pelo Lageamb. Link.
Ida a campo
A programação do I Encontro de Integração do INCT Wetscape “Entre Paisagens” uniu forças em uma agenda de campo no Complexo Estuarino de Paranaguá. Foi entre os dias 19 e 21 de junho. O encontro reuniu a coordenação geral, coordenadores de núcleos e das unidades de Paisagens Úmidas com o objetivo de articular as pesquisas científicas diretamente nos ecossistemas costeiros da região.
A visita no litoral paranaense foi organizada em parceria com a MarBrasil. A programação foi conduzida pela coordenadora da PU Complexo Estuarino de Paranaguá, Sarah Charlier Sarubo. “O encontro foi importante para alinhar conceitos, demandas e expectativas das coordenações e pontos focais das diversas PUs brasileiras relacionadas tanto ao Núcleo de Gestão de Dados quanto ao Núcleo de Comunicação Científica. Além disso, foi possível apresentar um panorama geral das pesquisas da PU do Complexo Estuarino de Paranaguá e mostrar aos participantes da rede como o nosso território possui uma biodiversidade incrível”, afirmou.
A imersão, no litoral paranaense, também proporcionou debates e observações técnicas essenciais para o monitoramento e a conservação das áreas úmidas. Foi possível observar de perto as dinâmicas ambientais. A agenda reforçou a importância do trabalho conjunto entre o INCT, o Viralume e o Lageamb.
Para o coordenador geral da Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras, Jochen Schongart, o evento elevou as discussões a um novo patamar após dias de debates, treinamentos e trocas de conhecimentos entre diferentes grupos de pesquisa.
Para o coordenador, um dos principais destaques do encontro foi a definição de que o Lageamb e o Viralume passarão a atuar como eixos para as iniciativas de comunicação científica da rede. “O encontro colocou a rede em outro patamar. Após vários dias de discussões e treinamentos intensos, estamos com uma articulação muito mais consolidada”, afirmou. “Com a implementação de um repositório de dados organizado pelo Lageamb, espera-se que os dados gerados pelas pesquisas locais estejam devidamente organizados em locais definidos, tornando-se acessíveis para a comunidade e de fácil reutilização em novos estudos”, completou. “Já o Viralume, ao assumir papel de protagonismo no Núcleo de Comunicação Científica, terá a missão estratégica de sensibilizar diferentes públicos sobre a importância e os impactos das pesquisas desenvolvidas nas regiões”, finalizou.
O mesmo entendimento tem a vice-coordenadora da Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras e coordenadora do Sistema Costeiro de Paisagens Úmidas Costeiras, Yara Schaeffer Novelli. “O que eu considero como ponto forte é o alinhamento. Iremos trabalhar em conjunto com os mesmos métodos para atingir os mesmos objetivos de uma rede”, pontuou a pesquisadora.
Durante o encontro, ficou estabelecido que, embora a rede compartilhe de uma visão macro para a conservação e estudo desses ecossistemas, as especificidades de cada região serão respeitadas por meio de subprojetos locais. “Rede tem objetivos gerais comuns, e os objetivos específicos ficam por conta de cada grupo de projeto. E esse é o objetivo plenamente atingido nesse encontro: o alinhamento para trabalho em rede”, concluiu.