É possível preparar profissionais de diferentes áreas para a sustentabilidade?

No curso de Engenharia Civil da UFPR, professora que integra o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) está à frente de disciplina criada para que os estudantes saibam encarar os desafios das ciências ambientais  

Maíra Gioia 
Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência 
20 de agosto de 2026

A formação universitária na área de Exatas está passando por uma transformação fundamental: o entendimento de que a engenharia civil não pode caminhar isolada dos impactos ambientais, sociais e climáticos. Um exemplo está no curso de Engenharia Civil, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A disciplina de Engenharia Civil e Sustentabilidade, ministrada no 5º período — exatamente na metade da graduação, foi criada para capacitar os estudantes a encarar os desafios das ciências ambientais na construção civil. Com carga horária de 60 horas, a matéria combina aulas expositivas, debates e projetos práticos de extensão vinculados ao Grupo de Estudos em Geotecnia (Gegeo), que é voltado para a mecânica dos solos e fundações.  

A doutora em Geotecnia, professora Roberta Bomfim, que integra o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da UFPR, explica que os alunos desenvolvem soluções técnicas diretamente com a comunidade após realizarem visitas de campo. No primeiro semestre de 2026, por exemplo, a turma realizou uma imersão no Jardim das Graças, em Colombo, cidade da Região Metropolitana de Curitiba. Por láapresentam soluções de drenagem para otimizar o manejo das águas pluviais, conhecidas como jardins de chuva e trincheiras de infiltração, e que podem ser adotadas futuramente. Também desenvolveram soluções para a captação e reaproveitamento de água da chuva com sistemas de cisternas, além de tratamento descentralizado de esgoto, uma alternativa local para o saneamento ambiental.  

Turma realizou uma imersão no Jardim das Graças, em Colombo, cidade da Região Metropolitana de Curitiba. Foto: arquivo pessoal

As ações, inseridas no Projeto Arvoredo, no âmbito do Periferias Verdes Resilientes, que desenvolve atividades voltadas à redução dos impactos das mudanças climáticas, aplicam a tecnologia BGG (Blue, Green, Grey), harmonizando o manejo de águas (Blue), vegetação urbana (Green) e infraestrutura construída (Grey). “A disciplina debate ainda conceitos essenciais do mercado moderno, como Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), Economia Circular, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, práticas ESG e a Certificação LEED — segmento em que Curitiba se destaca nacionalmente como a cidade brasileira com maior proporção de empreendimentos certificados”, acrescenta a professora.

Doutora em Geotecnia, professora Roberta Bomfim, que integra o Lageamb. Foto: arquivo Lageamb

Além dos ganhos ambientais imediatos para a comunidade, a iniciativa reformula o perfil do engenheiro egresso da universidade pública ao unir extensão comunitária e rigor técnico. Ao saírem das salas de aula para enfrentar gargalos estruturais em áreas vulneráveis, os estudantes aprendem a projetar considerando as limitações econômicas locais e a aceitação das soluções pela própria população. Essa aproximação entre o conhecimento acadêmico e as demandas reais do território rompe com o modelo tradicional de ensino estritamente teórico, preparando futuros profissionais não apenas para atender aos requisitos regulatórios do mercado, mas para liderar a transição da construção civil rumo a um modelo socio e ambientalmente justo e adaptado às emergências climáticas.  

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